Existe um fenômeno curioso dos nossos tempos
Nunca foi tão comum encontrar mulheres debatendo política, criticando decisões do Supremo Tribunal Federal, discutindo projetos de lei, opinando sobre economia, segurança pública ou qualquer outro tema que envolva a vida em sociedade. E isso é excelente. Afinal, democracia também se faz com participação.
Mas há um detalhe que, às vezes, passa despercebido.
Muitas dessas mesmas mulheres fazem questão de afirmar: “Eu não sou feminista.”
E tudo bem! Ninguém é obrigado a se identificar com qualquer movimento, mas a ironia vem logo depois.
Uma vez que a liberdade para participar desse debate público, votar, estudar, exercer uma profissão, administrar o próprio patrimônio e ocupar espaços de decisão não surgiu espontaneamente. Ela foi conquistada por mulheres que desafiaram uma realidade em que nada disso lhes era permitido.
Isso significa que o feminismo é perfeito? Evidente que não.
Como qualquer movimento social, possui diferentes correntes, divergências e também seus grupos mais radicais. Aliás, é difícil encontrar na história qualquer movimento que tenha produzido mudanças profundas sem enfrentar conflitos internos ou posições extremadas.
O problema é quando toda essa trajetória é reduzida aos seus excessos, enquanto suas conquistas são tratadas como se sempre tivessem existido.
É perfeitamente legítimo discordar de ideias, de pautas ou de pessoas. O que merece cuidado é transformar o senso comum em argumento, ignorando que muitos dos direitos que hoje parecem naturais nasceram justamente da coragem de mulheres que decidiram questionar o lugar que lhes era imposto.
Talvez a maior vitória desse movimento seja exatamente esta: permitir que uma mulher diga, livremente, que não precisa dele.
Porque houve um tempo em que ela sequer poderia opinar sobre isso. E talvez essa seja a ironia mais elegante da história: a liberdade de criticar o feminismo também é uma das liberdades que ele ajudou a tornar possível.
Dra. Débora Garcia Duarte