Um ano de coluna, um Agosto Lilás e a escolha de não silenciar aquilo que tantas mulheres ainda vivem...
Há exatamente um ano, em agosto de 2025, esta coluna começava. E talvez não pudesse ter começado em outro mês. Era Agosto Lilás, período dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Naquele momento, eu poderia ter escolhido escrever apenas como advogada, pesquisadora ou professora. Poderia apresentar leis, conceitos, estatísticas e explicar, tecnicamente, as diferentes formas de violência previstas no nosso ordenamento jurídico. Mas alguma coisa ainda faltaria. Porque eu sabia que, para falar sobre determinados problemas estruturais que atravessam a vida das mulheres, não bastava observá-los de fora. Era preciso criar conexão. Era preciso dizer aos leitores que, antes dos títulos, das salas de aula, dos processos e das pesquisas, existia ali também uma mulher entre tantas outras. Uma mulher que também conheceu um relacionamento abusivo. Uma mulher que também precisou compreender que determinadas situações que durante muito tempo aprendemos a normalizar não são normais. Foi assim que, no Agosto Lilás de 2025, decidi dar voz não apenas à profissional que estudava as estatísticas, mas à Débora que, em algum momento da vida, soube como era fazer parte delas. E talvez tenha sido justamente aí que esta coluna encontrou seu propósito. Ela nasceu para falar de violência contra a mulher, mas rapidamente ficou evidente que não seria possível falar de violência sem falar das estruturas que ainda determinam quais espaços podemos ocupar, quanto precisamos provar nossa competência, como somos julgadas quando exercemos poder, como a maternidade impacta a vida profissional, como o trabalho feminino é reconhecido — ou invisibilizado — e como as políticas públicas podem mudar destinos. Durante este primeiro ano, falamos de mulheres na política, no mercado de trabalho, no agronegócio, na liderança e nos espaços de decisão. Falamos de maternidade, sobrecarga, liberdade, direitos, relacionamentos, violência, comportamento social e políticas públicas. Falamos, sobretudo, sobre poder ocupar. Porque a violência contra a mulher não começa necessariamente na agressão física. Muitas vezes, ela começa muito antes: na tentativa de silenciar, controlar, diminuir, desacreditar ou convencer uma mulher de que determinado lugar não pertence a ela. Por isso, um ano depois, voltamos ao Agosto Lilás. Não apenas para lembrar que a Lei Maria da Penha completou vinte anos neste mês de agosto, mas para lembrar que nenhuma lei, por mais importante que seja, transforma sozinha uma estrutura social. A legislação é indispensável. A denúncia é indispensável. A rede de proteção é indispensável. Mas também é indispensável falar. Talvez seja exatamente por isso que continuo escrevendo. Há um ano, esta coluna nasceu da necessidade de transformar experiência em voz. Hoje, ela continua porque essa voz já não fala apenas sobre violência. Fala sobre mulheres, direitos, escolhas, espaços, desigualdades e sobre tudo aquilo que ainda precisamos transformar. Um ano depois, tenho ainda mais certeza do propósito que iniciou estas páginas: há silêncios que protegem estruturas. E há vozes que ajudam a desmontá-las.
Dra. Débora Garcia Duarte - Advogada, Mestre em Ciência Jurídica, Autora e Colunista.