Dói admitir, mas muitas vezes estamos entregando temas sérios nas mãos de moleques que não sabem trabalhar, mas sabem posar. Sabem apontar culpados, criar inimigos imaginários e transformar a própria inexperiência em “renovação”
Falta pouco para o período eleitoral, essa estação curiosa em que surgem sorrisos repentinos, abraços estratégicos e uma súbita preocupação com o povo. Personagens antes desaparecidos retornam iluminados, prontos para prometer tudo aquilo que não fizeram quando tinham a caneta na mão.
É também a temporada dos políticos da internet: especialistas em vídeos emocionados, frases prontas e indignação ensaiada. Resolvem tudo em trinta segundos, com trilha sonora motivacional e legenda em caixa alta. No vídeo, são gestores brilhantes. Na prática, muitos nunca administraram sequer a própria coerência. Governar exige estudo, responsabilidade, capacidade técnica e trabalho de verdade, qualidades que nem sempre rendem curtidas.
Há quem confunda popularidade com preparo, seguidores com liderança e barulho com competência. Assim surgem candidaturas embaladas como novidade, embora vazias por dentro. Muito marketing, pouca substância. Muito slogan, quase nenhum conteúdo.
A política vira recreio, enquanto a conta chega para quem acorda cedo, paga imposto e depende de serviços públicos funcionando.
E entre os assuntos sempre deixados para depois está a proteção das mulheres. Em época de campanha, aparecem discursos bonitos sobre respeito, igualdade e segurança. Mulheres surgem nas fotos, nos palanques e nos materiais eleitorais. Servem como símbolo conveniente. Terminada a eleição, muitas vezes voltam ao lugar reservado pelo oportunismo político: o esquecimento.
Faltam políticas públicas sérias e permanentes: redes de acolhimento, atendimento psicológico, delegacias especializadas, campanhas educativas e recursos reais para prevenção e proteção. Combater a violência contra a mulher não é pauta secundária, nem favor administrativo. É dever do Estado.
Mas alguns preferem usar a figura feminina para parecer modernos e sensíveis. Homenageiam mães em discursos, publicam mensagens no Dia da Mulher e posam cercados de eleitoras. Quando chega a hora de votar projetos, criar estruturas de apoio ou destinar verba, o entusiasmo desaparece.
Promessa vazia sempre cobra seu preço. Atrasa obras, piora serviços e destrói prioridades. No caso das mulheres, custa ainda mais: custa segurança, autonomia e, em situações extremas, vidas.
Com a eleição se aproximando, convém cuidado redobrado. Desconfie de milagres instantâneos, de salvadores produzidos por algoritmo e de candidatos que descobriram o povo apenas na temporada de votos. Quem só aparece em campanha talvez esteja interessado apenas na próxima foto.
Na urna, vale menos o carisma ensaiado e mais a trajetória comprovada. Menos meme, MAIS MEMÓRIA. Menos espetáculo, mais competência. Porque depois que a campanha passa, quem fica com as consequências somos nós.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.