Com a aproximação do Dia das Mães, é impossível não refletir sobre a força silenciosa — e muitas vezes invisível — das mulheres brasileiras
Embora eu ainda não seja mãe, acompanho diariamente a rotina, as dores, os desafios e a força de mulheres que fazem parte da minha convivência, clientes, alunas, amigas e familiares. Por atuar constantemente com temas relacionados à realidade feminina, consigo perceber de perto o peso emocional, físico e social que muitas mulheres carregam enquanto tentam equilibrar todas as áreas da vida. Mulheres que acordam cedo, trabalham fora, cuidam da casa, administram contas, resolvem problemas, acolhem dores, organizam rotinas e, ainda assim, encontram tempo para serem colo, cuidado e presença.
A maternidade real está muito distante das imagens perfeitas que frequentemente aparecem nas propagandas. Ela é feita de cansaço, preocupação constante, noites mal dormidas e uma responsabilidade emocional que raramente descansa. E mesmo diante de tantas exigências, milhões de mulheres seguem desempenhando múltiplos papéis diariamente.
A chamada “tripla jornada” deixou de ser exceção há muito tempo. Hoje, grande parte das mulheres concilia trabalho profissional, tarefas domésticas e a criação dos filhos, quase sempre acumulando responsabilidades que ainda são distribuídas de forma desigual dentro da sociedade.
E há um dado que revela muito sobre essa realidade: o número de crianças registradas apenas com o nome da mãe continua crescendo no Brasil. Segundo dados divulgados pelos cartórios de registro civil, milhares de certidões de nascimento são emitidas todos os anos sem o nome do pai. Isso significa que inúmeras mulheres assumem sozinhas não apenas o afeto e o cuidado, mas também toda a responsabilidade financeira, emocional e estrutural da criação dos filhos.
Ser mãe solo no Brasil é enfrentar desafios que vão muito além da maternidade. É lidar com a ausência de rede de apoio, com o preconceito, com a sobrecarga e, muitas vezes, com a invisibilidade social. Ainda assim, são mulheres que seguem firmes, transformando dificuldades em resistência diária.
Mas esta coluna não é apenas sobre exaustão. É, principalmente, sobre reconhecimento. Reconhecimento às mulheres que, mesmo cansadas, continuam presentes. Àquelas que trabalham o dia inteiro e ainda ajudam nas tarefas da escola. Às que escondem as próprias dores para proteger os filhos. Às que sustentam suas casas sozinhas. Às avós que se tornam mães novamente. Às mulheres que educam pelo exemplo, pela coragem e pela persistência.
A maternidade não deveria ser sinônimo de sobrecarga. O cuidado com os filhos deve ser uma responsabilidade compartilhada pela família, pela sociedade e pelo Estado. Valorizar as mães também significa discutir políticas públicas, igualdade de oportunidades, apoio psicológico, combate ao abandono parental e respeito às mulheres em todas as suas formas de maternar.
Neste Dia das Mães, mais do que flores e homenagens, talvez o que muitas mulheres desejem seja algo mais simples — e ao mesmo tempo mais profundo: reconhecimento, apoio e presença.
Porque, no fim, são elas que, todos os dias, sustentam o mundo enquanto seguem tentando sustentar a si mesmas.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.