Entre algoritmos, discursos misóginos e omissões políticas, cresce o alerta sobre como narrativas digitais podem alimentar uma cultura de violência contra mulheres
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um fenômeno inquietante: o crescimento de comunidades digitais que difundem discursos misóginos ao mesmo tempo em que se multiplicam notícias de violência brutal contra mulheres. A cada dia, somos bombardeados por novos casos — estupros, feminicídios, agressões dentro de casa. A repetição dessas manchetes deixou de ser episódica e passou a compor um retrato perturbador da realidade brasileira.
Nesse cenário, ganhou força nas redes sociais a chamada “red pill”, termo usado por comunidades online que afirmam representar um suposto “despertar masculino”. Em muitos desses espaços, porém, o discurso se traduz em narrativas de ressentimento contra mulheres, ataques a políticas de igualdade e a defesa de uma visão hierarquizada das relações de gênero.
O problema deixa de ser apenas virtual quando essas ideias começam a transbordar para o cotidiano.
O Brasil segue registrando índices alarmantes de violência de gênero. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que o país registra mais de mil feminicídios por ano, além de dezenas de milhares de casos de estupro e agressões domésticas. Para enfrentar essa realidade, o país conta com instrumentos legais importantes, como a Lei Maria da Penha, a qualificadora do feminicídio, mas ainda assim, os números revelam que a distância entre a lei e a realidade permanece grande.
Recentemente, um caso de estupro voltou a provocar indignação nacional e trouxe um elemento simbólico para esse debate. Um dos acusados foi conduzido para a prisão vestindo uma camiseta do movimento Red pill com o slogan “Não se arrependa de nada”. De cabeça erguida e com expressão de aparente ausência de remorso, a imagem rapidamente circulou nas redes sociais e reacendeu o debate sobre como determinados discursos que circulam no ambiente digital podem encontrar eco fora das telas.
É evidente que crimes dessa natureza não podem ser explicados por um único fator. A violência contra a mulher possui raízes históricas e estruturais profundas. No entanto, ignorar o ambiente cultural que se forma nas redes sociais seria um erro. Hoje, discursos que ridicularizam mulheres ou relativizam o consentimento circulam com facilidade em vídeos, podcasts e plataformas digitais.
Nesse contexto, chama atenção o silêncio — ou a reação tímida — de parte da classe política. Em meio à polarização e às disputas ideológicas, muitos parlamentares preferem evitar o enfrentamento direto desses discursos, seja por cálculo eleitoral, seja por receio de desagradar determinados grupos. Assim, o debate público acaba esvaziado, enquanto narrativas de ódio continuam se espalhando.
O resultado é um vazio perigoso. Quando a misoginia se naturaliza no discurso cotidiano, ela deixa de ser apenas opinião e passa a compor o ambiente cultural onde a violência encontra terreno fértil.
Quando a misoginia deixa de ser apenas discurso nas telas e passa a aparecer nas ruas, nas delegacias e nas manchetes policiais, o alerta precisa ser coletivo. Combater a violência contra a mulher não é uma pauta ideológica. É, antes de tudo, um compromisso civilizatório.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.