O problema nunca foram as flores. É quando elas aparecem sozinhas uma vez por ano
Chega o Dia dos Namorados e, com ele, um fenômeno curioso. Homens desaparecidos do radar afetivo durante meses reaparecem repentinamente nas floriculturas, joalherias e restaurantes. É quase um milagre sazonal.
As redes sociais se enchem de declarações apaixonadas, fotos de buquês exuberantes e legendas emocionadas. Por algumas horas, parece que todas as mulheres do país vivem romances dignos de cinema. No dia seguinte, porém, a louça continua na pia, as responsabilidades continuam divididas de forma desigual e a rotina volta ao normal.
Não que flores sejam um problema. Muito pelo contrário. Flores são lindas. Presentes são bem-vindos. Jantares especiais também. O problema talvez esteja quando o reconhecimento ganha data para acontecer.
A verdade é que a maioria das mulheres não espera gestos grandiosos. Espera ser vista. Espera parceria. Espera que alguém perceba o cansaço sem que ela precise anunciar em voz alta. Espera dividir preocupações, decisões e responsabilidades que muitas vezes parecem invisíveis para quem está ao lado.
Há algo curioso na forma como aprendemos a medir o amor. Valorizamos o buquê entregue em junho, mas raramente celebramos quem prepara um café quando o outro está exausto. Fotografamos o presente, mas não registramos a mensagem enviada durante um dia difícil. Publicamos o jantar, mas esquecemos que o carinho verdadeiro costuma aparecer nos intervalos da rotina.
Talvez por isso tantas mulheres sorriam ao receber flores e, ao mesmo tempo, façam aquela piada clássica: “Muito bonito, mas podia ter lavado a louça também.”
E talvez elas tenham razão.
Porque amor não deveria ser um evento. Não deveria depender do calendário, da propaganda ou da lembrança do aplicativo. O amor mais valioso costuma ser aquele que aparece numa terça-feira comum, sem foto, sem filtro e sem plateia.
Então, neste Dia dos Namorados, que venham as flores, os chocolates e os jantares. Eles têm seu charme. Mas que o cuidado, o respeito, a admiração e a parceria não sejam presentes de uma única data.
Afinal, rosas duram alguns dias. Reconhecimento deveria durar o ano inteiro.
Dra. Débora Garcia Duarte