Jornal O Sudoeste

Quando vencer se torna mais importante do que governar

Uma eleição pode produzir um vencedor sem necessariamente produzir um projeto de país.
19 de outubro de 2026, às 13h41 Colunas, Geral
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Nas últimas semanas, nossas reflexões têm se concentrado na política, na consciência democrática e no comportamento da sociedade diante das eleições. E não por acaso. Enquanto o Brasil se aproxima do segundo turno, continuar esse debate não significa insistir na política partidária, mas reconhecer que determinados momentos exigem reflexões mais profundas.
Afinal, uma eleição não revela apenas quem ocupará o poder, mas também o que uma sociedade espera de seus governantes e quais valores está disposta a defender.
Existe uma diferença substancial entre conquistar o poder e compreender a responsabilidade de exercê-lo. Vencer uma eleição exige mobilização, comunicação e convencimento. Governar, entretanto, exige capacidade administrativa, compromisso institucional, respeito à Constituição e disposição para representar inclusive aqueles que não escolheram o vencedor.
O problema é que parte da política contemporânea parece ter transformado a disputa eleitoral em uma competição permanente por vitórias e derrotas. Projetos de governo perdem espaço para a necessidade de derrotar o adversário. Nesse cenário, a divergência política deixa de ser compreendida como elemento natural da democracia e passa a alimentar uma divisão entre grupos que já não conseguem reconhecer legitimidade uns nos outros.
A ciência política denomina polarização afetiva o fenômeno em que a identificação com determinado grupo político é acompanhada de crescente rejeição emocional aos seus opositores. E suas consequências ultrapassam as eleições: propostas passam a ser julgadas mais por quem as apresenta do que por seus resultados, enquanto o interesse público se torna secundário diante da fidelidade ideológica.
O Filósofo e ex-senador italiano Norberto Bobbio já destacava que a democracia depende de regras capazes de permitir a competição política e a solução pacífica dos conflitos. Afinal, adversários são necessários à democracia; inimigos, não. Quando essa distinção desaparece, o debate político perde sua finalidade mais importante: encontrar caminhos para os problemas coletivos.
Vencer uma eleição confere legitimidade para governar, mas não representa autorização irrestrita para exercer o poder. A Constituição estabelece limites, protege direitos e impõe responsabilidades que não desaparecem diante da vontade de uma maioria. Da mesma forma, saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico não pertencem exclusivamente à direita ou à esquerda. São desafios nacionais que exigem competência, planejamento e políticas públicas capazes de produzir resultados.
Essa reflexão também alcança o eleitor. Quando a escolha política se transforma em fidelidade incondicional, a fiscalização dá lugar à defesa automática. Entretanto, o compromisso democrático não deve ser com a preservação de um governante ou partido, mas com os princípios e instituições que sustentam a própria democracia.
Estamos próximos de uma decisão eleitoral importante. Haverá vencedores e derrotados, como deve ocorrer em qualquer democracia. Mas talvez a pergunta mais necessária neste momento não seja apenas quem vencerá, e sim o que esperamos de quem receberá a responsabilidade de governar.
Porque vencer uma eleição não pode ser a finalidade da política. É apenas o início de uma responsabilidade que deve ser exercida em nome de toda a sociedade, inclusive daqueles que escolheram outro caminho.
Débora Garcia Duarte
Advogada, Mestre Em Ciências Jurídicas, Colunista.

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