As eleições revelaram um fenômeno que merece atenção para além dos resultados: a ascensão de jovens candidatos que transformaram sua presença nas redes sociais em capital político. Em muitos casos, a construção de uma candidatura já não começa nos partidos, nas organizações sociais ou nos debates públicos, mas diante da câmera de um celular.
A renovação geracional é importante para a democracia. Novas vozes ampliam a representação e podem romper estruturas tradicionais de poder. O problema não está na juventude dos eleitos, tampouco na utilização das plataformas digitais, mas na possibilidade de confundirmos popularidade com preparo, engajamento com consciência política e visibilidade com capacidade de governar.
As redes sociais modificaram profundamente a maneira como a política se comunica com a sociedade. A televisão e a rádio perderam parte de seu protagonismo, enquanto vídeos curtos, discursos provocativos e conteúdos emocionalmente envolventes passaram a disputar a atenção dos eleitores. Essa transformação democratizou o acesso à comunicação política, mas também criou um ambiente no qual a repercussão de uma declaração pode valer mais do que a consistência de uma proposta.
E aqui surge uma contradição importante: nunca tivemos tanto acesso à informação política e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em distinguir informação, opinião e estratégia de persuasão.
Os algoritmos não foram desenvolvidos para identificar os candidatos mais preparados ou as propostas mais viáveis. Sua lógica privilegia conteúdos capazes de produzir interação. Indignação, confronto e frases de efeito frequentemente encontram nesse ambiente condições favoráveis para circular. O risco é que a política passe a ser construída não pelo compromisso com problemas coletivos, mas pela necessidade permanente de produzir repercussão.
Isso não significa que os eleitores sejam incapazes de fazer escolhas conscientes. Significa reconhecer que suas escolhas acontecem em um ambiente de comunicação cada vez mais sofisticado, no qual a formação da opinião pública também se tornou objeto de disputa.
A presença de jovens na política pode representar uma transformação positiva. Entretanto, a verdadeira renovação democrática não se mede pela idade dos representantes, pelo número de seguidores ou pela quantidade de visualizações. Mede-se pela qualidade das ideias, pela responsabilidade no exercício do mandato e pela capacidade de transformar apoio popular em resultados concretos.
Talvez a questão mais importante depois dessas eleições não seja apenas quem conseguiu conquistar milhões de visualizações, mas o que os eleitores efetivamente conheceram sobre aqueles a quem confiaram o poder.
Porque uma democracia não se fortalece simplesmente quando mais pessoas conseguem falar.
Ela se fortalece quando a sociedade desenvolve condições para compreender, questionar e avaliar aquilo que está sendo dito.
A popularidade pode vencer uma eleição. Mas não deveria ser suficiente para legitimar, por si só, o exercício do poder.
Dra. Débora Garcia Duarte.
Advogada, Mestre em Ciências Jurídicas e Colunista.