O que os vídeos sobre o voto feminino revelam sobre a influência das redes sociais na construção das nossas opiniões
Há discursos que, quando pronunciados em voz alta, revelam imediatamente sua gravidade. Mas, quando aparecem acompanhados de uma música engraçada ou de uma edição bem-feita nas redes sociais, parecem perder parte do peso que carregam. Nos últimos tempos, vídeos e publicações têm reproduzido afirmações de que mulheres não sabem votar, deveriam acompanhar as escolhas políticas dos maridos ou não teriam conhecimento suficiente para discutir determinados assuntos.
O problema não está apenas na existência dessas opiniões, mas na maneira como circulam, alcançam milhares de pessoas e passam a integrar, quase silenciosamente, a formação das nossas percepções sobre o mundo. Porque aquilo que consumimos repetidamente também influencia o que aprendemos a considerar normal.
Uma afirmação não se torna verdadeira porque recebeu milhares de curtidas. Um preconceito não deixa de ser preconceito porque foi transformado em humor. Entretanto, quando determinadas mensagens são repetidas constantemente, podem deixar de provocar estranhamento. E a familiaridade pode produzir uma perigosa sensação de normalidade.
O Brasil reconheceu o voto feminino em 1932, após décadas de mobilização de mulheres que enfrentaram argumentos semelhantes aos que hoje reaparecem nas redes sociais. Naquele período, a exclusão feminina era frequentemente justificada pela suposta incapacidade de compreender assuntos públicos.
Quase um século depois, mudaram as leis e os meios de comunicação, mas determinadas concepções continuam encontrando maneiras de sobreviver.
Uma adolescente que cresce ouvindo que política não é assunto de mulher pode passar a acreditar que sua opinião tem menos importância. Um menino que consome repetidamente conteúdos associando autoridade masculina à obediência feminina pode incorporar essa relação como uma expectativa natural.
Essa discussão me preocupa especialmente pelo impacto do ambiente digital na formação intelectual dos jovens. Estamos diante de uma geração com acesso a uma quantidade extraordinária de conteúdos, mas que nem sempre encontra condições para examiná-los criticamente.
Ter acesso à informação não significa, automaticamente, desenvolver conhecimento. É possível assistir a dezenas de vídeos sobre política e continuar sem compreender o funcionamento das instituições. E é possível reproduzir discursos sobre liberdade enquanto se defende, sem perceber a contradição, que outras pessoas deveriam ter sua autonomia limitada.
Discordar da opinião política de uma mulher é legítimo. O que não pode ser confundido com debate é a tentativa de desqualificar sua capacidade de participar simplesmente por ser mulher.
Um casal pode compartilhar convicções políticas e votar no mesmo candidato. A questão começa quando a concordância deixa de ser uma escolha e passa a ser apresentada como obrigação, pois o casamento não transforma a consciência política de duas pessoas em uma única consciência.
A Constituição reconhece a igualdade entre homens e mulheres. O voto é individual e secreto. Mas nenhuma garantia jurídica dispensa a necessidade de construir uma cultura capaz de reconhecer seu significado.
Uma sociedade não aprende apenas pelas leis que aprova. Aprende também pelas mensagens que repete, pelos comportamentos que celebra e pelas ideias que deixa de questionar.
O perigo não está em uma mulher votar de maneira diferente daquela que consideramos adequada. Está em construir um ambiente no qual ela passe a acreditar que não deveria escolher por si mesma.
Uma democracia não se fragiliza apenas quando direitos são retirados das leis, mas também quando a sociedade começa a tratar como aceitável a ideia de que determinadas pessoas não deveriam exercê-los plenamente.
O voto feminino foi reconhecido há quase um século. A autonomia das mulheres não pode continuar sendo tratada como uma concessão sujeita à aprovação de terceiros. E, antes de compartilhar o próximo vídeo, talvez valha a pena perguntar:
Estamos apenas reproduzindo uma opinião ou ajudando a construir uma sociedade em que determinadas pessoas aprendem que sua própria voz vale menos?
Dra. Débora Garcia Duarte