Consciência política não nasce na urna e talvez estejamos ensinando democracia tarde demais
Falamos muito sobre consciência política. Cobramos posicionamento, criticamos escolhas, discutimos eleições, democracia, direitos e decisões de governo. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas discussões que raramente fazemos: em que momento aprendemos, de fato, a pensar politicamente?
Porque votar é apenas uma das expressões da cidadania. Consciência política é algo muito maior. É compreender que vivemos em sociedade e que decisões coletivas interferem diretamente na nossa vida. É perceber que direitos não surgiram espontaneamente, mas são resultado de processos históricos, disputas, avanços e também retrocessos. É conseguir ouvir uma proposta e perguntar quem será atingido por ela, quais interesses estão envolvidos e quais podem ser suas consequências.
É, sobretudo, aprender a pensar antes de simplesmente escolher um lado.
E talvez seja justamente aí que a educação tenha um papel que ainda precisamos discutir com mais coragem.
Quando se fala em educação política nas escolas, rapidamente aparece o receio da doutrinação. É um receio legítimo e que não deve ser ignorado. Nenhum professor deveria utilizar a autoridade da sala de aula para determinar em quem um estudante deve votar ou qual posição ideológica deve adotar. Mas existe uma diferença enorme entre ensinar o que pensar e ensinar a pensar.
Uma escola comprometida com educação política não precisa produzir alunos de direita, de esquerda ou de centro. Precisa formar jovens capazes de compreender o que essas posições significam, conhecer diferentes perspectivas, confrontar argumentos, questionar fontes e perceber quando um problema complexo está sendo apresentado como se tivesse uma resposta simples.
Isso é consciência política.
E ela se torna ainda mais necessária em uma época em que o primeiro contato de muitos jovens com assuntos públicos não acontece por meio de um livro, de uma aula ou de um debate aprofundado. A política também chega pela tela do celular, misturada ao entretenimento, aos influenciadores, aos memes, aos cortes de vídeos e às frases construídas para provocar uma reação imediata.
Nesse ambiente, ter acesso a muita informação não significa necessariamente estar bem informado.
É por isso que talvez estejamos concentrando esforços demais em discutir o que as pessoas pensam, quando deveríamos prestar mais atenção aos instrumentos que oferecemos para que elas possam pensar por conta própria.
Educação política poderia significar estudar democracia não apenas como uma definição em uma prova, mas como uma construção permanente. Poderia significar discutir liberdade, igualdade, participação, direitos fundamentais, autoritarismo, representação, cidadania, movimentos sociais e responsabilidade coletiva. Poderia ensinar que discordar faz parte da democracia e que adversário político não precisa ser transformado em inimigo.
E poderia ensinar algo ainda mais importante: nenhuma convicção deveria nos dispensar da necessidade de questionar.
Uma sociedade politicamente consciente não é aquela em que todos chegam às mesmas conclusões. É aquela em que as pessoas possuem instrumentos para construir suas próprias conclusões e maturidade para revê-las quando os fatos e os argumentos exigirem.
Talvez esse seja um dos maiores desafios da educação para a democracia. Não preparar jovens apenas para o momento em que estarão diante de uma urna, mas para todos os outros momentos em que precisarão decidir como se posicionar diante do mundo.
Porque uma democracia não se fortalece quando ensinamos às pessoas qual posição devem defender. Ela se fortalece quando lhes damos conhecimento suficiente para que ninguém precise pensar por elas. E talvez seja exatamente esse o sentido mais profundo da educação política: formar cidadãos livres não apenas para escolher, mas para compreender aquilo que estão escolhendo.
Dra. Débora Garcia Duarte