O debate político sempre foi, por natureza, espaço de divergência, confronto de ideias e disputa de projetos de sociedade. No entanto, nos últimos anos, observa-se uma transformação preocupante nesse cenário: a substituição do argumento pelo ataque, da crítica pelo insulto e do diálogo pela hostilidade calculada. O discurso de ódio, antes reconhecido como prática marginal, passou a ocupar posição estratégica no campo político, muitas vezes utilizado como ferramenta deliberada de mobilização social e engajamento midiático.
A lógica que sustenta esse fenômeno não é acidental. Em uma era marcada pela hiperconectividade e pela velocidade da informação, o conflito tornou-se um produto altamente rentável. A provocação gera repercussão, a polarização amplia visibilidade e a indignação coletiva transforma lideranças políticas em protagonistas constantes do debate público. O algoritmo das redes sociais, por sua própria estrutura, privilegia conteúdos que despertam reações emocionais intensas, e poucos elementos mobilizam tanto quanto o ressentimento, o medo e a revolta.
Nesse contexto, o discurso de ódio deixa de ser apenas manifestação individual de intolerância para se transformar em instrumento político. A construção de inimigos simbólicos, a desumanização de grupos sociais e a difusão de narrativas que estimulam a divisão social passam a funcionar como estratégias de fortalecimento identitário. Ao criar a figura do adversário como ameaça, constrói-se também a imagem do líder como defensor, protetor e porta-voz de uma suposta moral coletiva.
Sob a perspectiva jurídica, essa banalização representa um desafio complexo. A liberdade de expressão constitui um dos pilares fundamentais do Estado Democrático de Direito, sendo essencial para a circulação de ideias, críticas e posicionamentos políticos. Entretanto, nenhum direito fundamental é absoluto. O ordenamento jurídico brasileiro estabelece limites claros quando manifestações ultrapassam o campo da opinião e passam a violar a dignidade humana, a igualdade e a integridade moral de indivíduos ou grupos sociais.
O discurso de ódio, ao promover a inferiorização e a exclusão simbólica, não apenas atinge diretamente seus alvos, mas também compromete valores estruturantes da democracia. Ao naturalizar a violência verbal e o desrespeito, cria-se um ambiente social permissivo à intolerância e à legitimação de práticas discriminatórias. A linguagem, nesse cenário, deixa de ser instrumento de construção política para se tornar mecanismo de agressão e controle social.
Outro aspecto relevante desse fenômeno reside na sua capacidade de diluir responsabilidades. Quando discursos ofensivos são apresentados como meras opiniões ou posicionamentos ideológicos, constrói-se uma zona de ambiguidade que dificulta a responsabilização. A retórica provocativa passa a ser defendida sob o argumento da autenticidade, enquanto as consequências sociais da disseminação do ódio são frequentemente relativizadas ou ignoradas.
Além disso, a banalização do discurso de ódio produz impactos profundos no próprio ambiente democrático. O debate público, que deveria ser espaço de pluralidade e confronto racional de ideias, transforma-se em terreno de hostilidade permanente. A radicalização discursiva reduz a possibilidade de diálogo, estimula a fragmentação social e enfraquece a construção coletiva de soluções para problemas complexos.
Há, ainda, uma consequência silenciosa, porém igualmente preocupante: o efeito pedagógico da violência verbal. Quando lideranças políticas utilizam o discurso de ódio como ferramenta de visibilidade, acabam legitimando socialmente comportamentos intolerantes. A repetição dessas narrativas contribui para a normalização da agressividade como forma legítima de participação política, ampliando ciclos de violência simbólica e social.
A história demonstra que processos de deterioração democrática raramente se iniciam por rupturas abruptas. Frequentemente, eles se constroem de maneira gradual, por meio da naturalização de práticas que fragilizam valores fundamentais. A banalização do discurso de ódio insere-se exatamente nesse contexto, ao transformar a agressão verbal em estratégia legítima de disputa política e ao substituir o debate racional pela mobilização emocional.
Defender limites ao discurso de ódio não significa restringir a liberdade de expressão, mas preservar as condições que tornam essa liberdade possível. Uma democracia saudável depende da coexistência de ideias divergentes, mas também exige o reconhecimento da dignidade como valor inegociável. Quando a política abandona o campo das ideias e passa a se sustentar na lógica da hostilidade, o risco não é apenas o empobrecimento do debate público, mas a fragilização das próprias bases democráticas.
Talvez o maior perigo da banalização do discurso de ódio não esteja apenas nas palavras proferidas, mas naquilo que elas constroem coletivamente. Porque, quando o grito substitui o argumento e a agressão ocupa o lugar do diálogo, a política deixa de ser espaço de construção social para se tornar apenas um palco de confrontos permanentes.
E, em uma sociedade que aprende a ouvir apenas aquilo que reforça suas próprias certezas, o silêncio da razão pode ser o primeiro sintoma de uma democracia que começa a se esquecer de si mesma.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.
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