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Por que mulheres consideradas “fortes” também permanecem em relações abusivas - e o que isso revela sobre  a sociedade, não sobre elas
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Por que mulheres consideradas “fortes” também permanecem em relações abusivas - e o que isso revela sobre a sociedade, não sobre elas

  • 19/01/2026 10:22:00
  • O Sudoeste
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Existe uma pergunta que surge com frequência sempre que um caso de violência contra a mulher vem à tona, especialmente quando a vítima é uma mulher instruída, economicamente independente e profissionalmente bem-sucedida: “Mas por que ela não saiu?”
Essa pergunta, embora muitas vezes feita sem intenção de julgamento, carrega um equívoco perigoso. Parte da ideia de que a violência escolhe apenas mulheres frágeis, submissas ou em situação de vulnerabilidade econômica, como se força, estudo e autonomia fossem uma espécie de proteção automática contra o abuso. Não são. 
A violência contra a mulher não seleciona vítimas pela fragilidade. Ela se constrói dentro de relações afetivas, expectativas sociais e estruturas culturais que, muitas vezes, são invisíveis para quem observa de fora — e profundamente complexas para quem vive por dentro.
Mulheres fortes também criam vínculos, acreditam em promessas e desejam que a relação funcione. Também foram ensinadas, desde cedo, a compreender, ceder, insistir e “tentar mais uma vez”. Ensinadas a não falhar. Relações abusivas raramente começam com agressões evidentes. Elas se iniciam de forma sutil: um controle disfarçado de cuidado, um ciúme romantizado, uma crítica constante que corrói a autoestima, um isolamento que acontece aos poucos.
Quando a violência se intensifica, já existe uma história construída, laços emocionais e expectativas. Sair não é simples — não por falta de força, mas pelo acúmulo de medos: medo do julgamento social, de não ser acreditada, de expor a própria dor e de ver sua trajetória reduzida a uma relação fracassada.
Para mulheres um pouco mais instruídas, esse peso costuma ser ainda maior. Há a vergonha silenciosa do “como eu, que compreendo tanto, permiti isso?”. Há a cobrança por coerência, como se conhecimento impedisse a manipulação emocional. Soma-se a isso a violência psicológica, que não deixa marcas visíveis, mas desorganiza emoções, distorce percepções e faz a mulher duvidar de si mesma. Quando não há hematomas, a sociedade tende a minimizar — e o silêncio se fortalece.
É preciso romper com a narrativa de que apenas mulheres fragilizadas ou economicamente dependentes se envolvem em relações abusivas. Essa visão é falsa e perigosa, pois impede que muitas mulheres se reconheçam como vítimas e busquem ajuda. A violência não é falha individual; é um problema social, cultural e estrutural. 
Quando insistimos em perguntar “por que ela ficou?”, desviamos o foco do que realmente importa: por que ainda relativizamos as atitudes do agressor? Justificativas como estresse, ciúme ou dificuldades pessoais surgem com rapidez, enquanto a mulher é pressionada a explicar sua permanência. Analisa-se o comportamento da vítima, mas suavizam-se as ações de quem violenta.
Culpar a mulher que permaneceu é mais confortável do que enfrentar o problema central: a violência ainda encontra espaço para ser normalizada. Enquanto questionamos as escolhas de quem sofreu, deixamos de responsabilizar quem escolheu controlar, humilhar e ferir.
Desconstruir esses estigmas é urgente. Força não é imunidade. Permanência não é consentimento. E enfrentar a violência contra a mulher exige deslocar o olhar da vítima para o agressor, do julgamento para a responsabilidade. Só assim será possível construir um futuro em que falar sobre isso não seja exceção — mas parte do compromisso coletivo com a dignidade e a vida das mulheres.

Dra. Débora Garcia Duarte 
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária. 
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo. 
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.

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