Os recentes casos de feminicídio, incluindo o crime filmado pelo agressor e o assassinato de uma freira, escancaram que a violência contra a mulher é estrutural e exige resposta urgente como política pública
O Brasil volta a assistir, estarrecido, a mais uma sequência de feminicídios que escancaram uma ferida social profunda. Em um dos casos recentes, o agressor não apenas matou — ele filmou. Transformou a execução em espetáculo, em demonstração pública de poder. Em outro episódio que chocou o país, a vítima foi uma freira. Dois contextos completamente distintos, mas o mesmo desfecho brutal: mulheres assassinadas por serem mulheres.
É preciso enfrentar a verdade sem rodeios. Não é sobre roupa, não é sobre horário, não é sobre comportamento, não é sobre relacionamento. Quando uma freira é morta, desmonta-se o discurso moralista que insiste em culpar a vítima. Quando o agressor grava o crime, revela-se a face mais cruel da violência: o feminicídio como afirmação de domínio, como troféu, como recado.
Os números mostram que não se trata de casos isolados. O Brasil registra mais de 1.400 feminicídios por ano, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública — o equivalente a uma mulher morta, em média, a cada seis horas. Na maioria das vezes, o autor é companheiro ou ex-companheiro, e o crime ocorre dentro de casa. O lugar que deveria proteger é, para muitas, o mais perigoso.
O feminicídio é a expressão extrema de uma cultura de posse ainda presente nas relações. A violência não começa no dia do assassinato; ela se constrói no controle, na manipulação, no isolamento, nas ameaças naturalizadas. A vulnerabilidade feminina não é biológica — é estrutural. Está na desigualdade econômica, na dependência financeira, na dificuldade de romper ciclos abusivos e no medo de denunciar.
Filmar um feminicídio é a versão contemporânea de um problema antigo: a tentativa de eternizar o poder sobre o corpo feminino. Já o assassinato de uma freira deixa claro que não existe “perfil” capaz de proteger uma mulher quando o problema é o ódio de gênero.
A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio foram avanços fundamentais, mas os dados mostram que a resposta penal, sozinha, não basta. É urgente tratar a violência contra a mulher como prioridade real de política pública — com prevenção, educação para igualdade, fortalecimento das redes de proteção e cumprimento rigoroso de medidas protetivas.
O feminicídio não é crime passional. Não é descontrole. É crime de ódio. E enquanto insistirmos em perguntar o que a vítima fez, deixaremos de enfrentar a pergunta essencial: por que ainda permitimos que mulheres sejam mortas por exercerem sua liberdade de existir?
O combate ao feminicídio não é pauta feminina. É pauta civilizatória.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.