Nem toda força é escolha. Muitas vezes, ela nasce da ausência de apoio, da sobrecarga e da necessidade de sobreviver
“Você é tão forte.”
Poucas frases são tão frequentemente dirigidas às mulheres quanto essa. E, na maioria das vezes, ela vem como elogio. O problema é quando a força deixa de ser uma qualidade e passa a ser uma expectativa.
Espera-se que a mulher suporte. Que enfrente a separação, crie os filhos, trabalhe, cuide da casa, administre crises, supere dores e siga em frente. Tudo ao mesmo tempo. Tudo sem reclamar. Afinal, ela é forte.
A sociedade admira mulheres que carregam o mundo nas costas, mas raramente se pergunta por que elas precisam carregá-lo sozinhas.
Aplaude-se a resiliência, mas pouco se discute a sobrecarga. Exalta-se a guerreira, enquanto se normaliza a ausência de apoio. Como se a capacidade de resistir fosse suficiente para justificar o abandono.
A força feminina foi romantizada. Transformou-se quase em obrigação. E talvez esteja aí o problema.
Nem toda mulher forte escolheu ser forte. Muitas apenas não tiveram alternativa.
Por trás da mulher que “dá conta de tudo” existe, muitas vezes, alguém que precisou aprender a sobreviver sem ajuda, sem acolhimento e sem que ninguém dividisse o peso.
Reconhecer a força das mulheres é importante. Mas talvez seja hora de parar de esperar que elas sejam fortes o tempo todo.
Porque nem toda mulher forte nasceu para carregar o mundo. Muitas apenas não tiveram quem segurasse uma ponta.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.