No dia 26 de agosto celebramos o Dia Internacional da Igualdade Feminina. A data passou. As homenagens também. Agora talvez possamos conversar sobre a parte menos confortável dessa igualdade: a mulher conquistou o direito de ocupar praticamente todos os espaços. O problema parece começar quando ela decide ocupá-los sem pedir licença.
No dia 26 de agosto celebramos o Dia Internacional da Igualdade Feminina. E talvez “celebrar” seja mesmo a palavra adequada. Mulheres votam. Estudam. Trabalham. Ocupam cargos públicos. Administram empresas. Sustentam famílias. Escolhem seus parceiros. Podem se divorciar. Podem ter patrimônio. Podem participar da política. Podem dizer não. No papel, avançamos muito. A pergunta inconveniente é: a sociedade avançou na mesma velocidade? Porque existe uma diferença importante entre igualdade formal e igualdade material. A primeira cabe na lei. A segunda precisa caber na vida. E é justamente aí que nossa comemoração começa a ficar um pouco desconfortável. Não basta dizer que homens e mulheres possuem os mesmos direitos quando ainda julgamos de maneiras completamente diferentes a forma como cada um deles exerce esses direitos. A mulher pode ocupar espaços de poder. Mas, quando ocupa, sua firmeza frequentemente vira arrogância. Pode construir uma carreira. Mas ainda precisa explicar porque trabalha tanto. Pode participar da política. Mas sua opinião continua sendo examinada não apenas pelo conteúdo, mas pelo tom de voz, pela roupa, pela aparência e, não raramente, pelo homem que está ou deixou de estar ao seu lado. Pode terminar um relacionamento. Mas ainda há quem interprete o fim de uma relação como uma afronta masculina a ser corrigida. Pode ser independente, desde que sua independência não incomode demais.
Curiosa essa nossa igualdade não é?
Concedemos às mulheres o direito de ocupar praticamente todos os espaços, mas ainda demonstramos certo desconforto quando elas percebem que não precisam pedir licença para permanecer neles. Talvez por isso seja tão importante falar sobre igualdade feminina sem transformar a data em uma sucessão de frases bonitas sobre mulheres fortes, inspiradoras e capazes de tudo. Aliás, essa obrigação de sermos fortes o tempo inteiro também merece alguma desconfiança. Mulheres não precisam provar permanentemente que conseguem suportar tudo. Precisam de uma sociedade em que não sejam obrigadas a suportar tanto. A verdadeira igualdade não estará consolidada quando tivermos apenas mais mulheres chegando a lugares que antes lhes eram proibidos. Estará quando uma mulher puder chegar a esses lugares sem precisar ser excepcional para ser considerada legítima. Quando puder discordar sem ser chamada de desequilibrada. Liderar sem ser considerada autoritária. Envelhecer sem desaparecer socialmente.
Escolher não casar, não ter filhos, mudar de profissão, terminar uma relação, participar da política, ganhar mais dinheiro ou simplesmente dizer “não” sem que cada decisão seja submetida a um tribunal moral coletivo. As leis foram fundamentais. Muitas mulheres lutaram para que hoje pudéssemos considerar óbvios direitos que, historicamente, não eram. Mas talvez exista um risco quando uma sociedade começa a acreditar que a existência desses direitos significa que a desigualdade acabou.
Não acabou.
Ela apenas ficou mais sofisticada.
Nem sempre aparece em uma proibição explícita. Às vezes aparece no julgamento, na desqualificação, na interrupção da fala, na violência política, no controle disfarçado de cuidado, na cobrança desigual e na tentativa permanente de enquadrar mulheres dentro de comportamentos considerados aceitáveis.
Por isso, depois do dia 26, talvez devêssemos guardar menos frases comemorativas e uma pergunta a mais: Nós realmente queremos mulheres iguais ou apenas aprendemos a conviver com mulheres que têm direitos desde que elas não os exerçam de maneira inconveniente?
Porque reconhecer direitos foi uma enorme conquista.
Aceitar mulheres plenamente livres talvez ainda seja a ferida social que evitamos tocar.
Dra. Débora Garcia Duarte