Existe algo curiosamente desconfortável para certas estruturas de poder: uma mulher que pensa. Pior ainda se ela fala. Mais ameaçador se questiona. Quase insuportável se recusa a pedir licença para existir em espaços historicamente ocupados por vozes graves, egos inflados e decisões tomadas entre apertos de mão e velhos acordos.
Ainda há quem espere que a mulher na política e em qualquer ambiente de influência seja quase decorativa. Que sorria com educação, discorde com delicadeza e, se possível, tenha opiniões que não causem constrangimento aos donos simbólicos da mesa. Uma presença elegante, desde que silenciosa. Inteligente, desde que não confronte. Forte, desde que não ultrapasse o limite invisível imposto por quem se acostumou a mandar sem ser interrompido.
Quando uma mulher ergue a voz, não em histeria como alguns ainda tentam rotular, mas em convicção, ela rapidamente deixa de ser “firme” para se tornar “difícil”.
Se um homem bate na mesa, dizem que é liderança. Se uma mulher questiona a mesa, dizem que é temperamental. O velho manual da conveniência masculina continua circulando, apenas ganhou linguagem mais sofisticada.
O curioso é que o poder sempre tolerou incompetência com uma serenidade admirável. Homens despreparados, discursos vazios, promessas recicladas e decisões frágeis raramente causam o mesmo espanto que uma mulher segura, articulada e sem vocação para submissão.
Talvez porque uma mulher que pensa não peça. E uma mulher que não pede autorização desmonta estruturas construídas justamente sobre a ideia de obediência silenciosa.
Mas há algo ainda mais irônico: exigem que a mulher prove competência o tempo todo, enquanto muitos homens seguem ocupando espaços sustentados apenas pela confortável tradição de serem homens em lugares onde sempre houve homens.
Não se trata de guerra entre gêneros. Trata-se de desconforto histórico diante da autonomia feminina. Porque uma mulher instruída assusta. Uma mulher independente incomoda. E uma mulher politicamente consciente desorganiza certezas antigas.
O salto alto, aqui, nunca foi sobre estética. É símbolo. De presença. De postura. De quem aprendeu a caminhar firme até em terrenos inclinados, mesmo quando o chão foi feito para dificultar.
E talvez o maior deboche feminino seja exatamente esse: continuar pensando, ocupando, decidindo e falando seja ele com ou sem convite.
Porque o poder ainda estranha uma mulher que pensa. E talvez, só talvez esteja na hora de se acostumar.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada. Mestre em Direito (UENP) Professora universitária.
Autora da obra Reveng Porn: a perpetuação da violência contra a mulher na internet e o poder punitivo.
Pesquisadora na área de direitos das mulheres e doutoranda.