Jornal O Sudoeste

E se o seu candidato perder?

O verdadeiro teste da democracia talvez comece quando as urnas contrariam nossas expectativas
23 de outubro de 2026, às 16h29 Atualizado em 23 de outubro de 2026, às 16h48 Colunas, Geral Dra. Débora Garcia Duarte
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No próximo domingo, milhões de brasileiros voltarão às urnas para decidir o segundo turno das eleições presidenciais. Depois de meses de campanhas, debates, pesquisas e disputas intensas, teremos um vencedor. Mas existe uma pergunta que raramente ocupa o centro das discussões eleitorais: e se o seu candidato perder?
A pergunta parece simples, mas revela uma das questões mais delicadas da nossa cultura política. Aprendemos a defender nossas escolhas com entusiasmo, a justificar nossas preferências e, muitas vezes, a transformar convicções políticas em parte da nossa identidade.
O problema começa quando a derrota eleitoral deixa de ser compreendida como uma possibilidade legítima da democracia e passa a ser interpretada como uma afronta pessoal.
A democracia não foi concebida para garantir que nossas preferências prevaleçam. Sua legitimidade está justamente na existência de regras capazes de organizar divergências, assegurar a alternância de poder e permitir que diferentes projetos políticos disputem o governo. Aceitar esse princípio é relativamente fácil quando o resultado nos favorece. A dificuldade aparece quando ele beneficia aqueles de quem discordamos.
Isso não significa exigir silêncio, conformismo ou concordância com o vencedor. Pelo contrário. A oposição política é indispensável ao funcionamento democrático. Questionar decisões, criticar propostas e resistir, pelos meios institucionais, a medidas consideradas equivocadas são expressões legítimas da cidadania. O que distingue a oposição democrática da intolerância política não é a intensidade da discordância, mas o respeito às regras que tornam possível discordar.
Talvez tenhamos desenvolvido uma relação excessivamente emocional com a política, na qual reconhecer uma qualidade no adversário parece traição e admitir um erro do próprio candidato representa fraqueza. Nesse ambiente, os fatos perdem espaço para a necessidade permanente de defender um lado. E, quando a identidade política se torna mais importante do que a capacidade de reflexão, o debate público empobrece.
O resultado de domingo não eliminará as diferenças que atravessam a sociedade brasileira. Tampouco deveria eliminá-las. O pluralismo político, reconhecido como fundamento da República pela Constituição Federal, pressupõe justamente a convivência entre perspectivas distintas, inclusive profundamente divergentes.
Por isso, talvez a pergunta mais importante destas eleições não seja apenas quem estamos preparados para escolher, mas como estamos preparados para reagir caso a maioria escolha diferente de nós.
Porque a maturidade democrática não se revela apenas na liberdade de votar em quem desejamos. Revela-se também na capacidade de reconhecer a legitimidade de uma derrota, sem renunciar às próprias convicções, e de compreender que nenhum candidato, partido ou liderança política é maior do que as instituições que permitem sua existência.
No domingo, um candidato perderá a eleição. O que não podemos permitir é que, junto com ele, percamos a capacidade de viver democraticamente.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada, Mestre em Ciências Jurídicas e Colunista.

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