No próximo domingo, milhões de brasileiros voltarão às urnas para decidir o segundo turno das eleições presidenciais. Depois de meses de campanhas, debates, pesquisas e disputas intensas, teremos um vencedor. Mas existe uma pergunta que raramente ocupa o centro das discussões eleitorais: e se o seu candidato perder?
A pergunta parece simples, mas revela uma das questões mais delicadas da nossa cultura política. Aprendemos a defender nossas escolhas com entusiasmo, a justificar nossas preferências e, muitas vezes, a transformar convicções políticas em parte da nossa identidade.
O problema começa quando a derrota eleitoral deixa de ser compreendida como uma possibilidade legítima da democracia e passa a ser interpretada como uma afronta pessoal.
A democracia não foi concebida para garantir que nossas preferências prevaleçam. Sua legitimidade está justamente na existência de regras capazes de organizar divergências, assegurar a alternância de poder e permitir que diferentes projetos políticos disputem o governo. Aceitar esse princípio é relativamente fácil quando o resultado nos favorece. A dificuldade aparece quando ele beneficia aqueles de quem discordamos.
Isso não significa exigir silêncio, conformismo ou concordância com o vencedor. Pelo contrário. A oposição política é indispensável ao funcionamento democrático. Questionar decisões, criticar propostas e resistir, pelos meios institucionais, a medidas consideradas equivocadas são expressões legítimas da cidadania. O que distingue a oposição democrática da intolerância política não é a intensidade da discordância, mas o respeito às regras que tornam possível discordar.
Talvez tenhamos desenvolvido uma relação excessivamente emocional com a política, na qual reconhecer uma qualidade no adversário parece traição e admitir um erro do próprio candidato representa fraqueza. Nesse ambiente, os fatos perdem espaço para a necessidade permanente de defender um lado. E, quando a identidade política se torna mais importante do que a capacidade de reflexão, o debate público empobrece.
O resultado de domingo não eliminará as diferenças que atravessam a sociedade brasileira. Tampouco deveria eliminá-las. O pluralismo político, reconhecido como fundamento da República pela Constituição Federal, pressupõe justamente a convivência entre perspectivas distintas, inclusive profundamente divergentes.
Por isso, talvez a pergunta mais importante destas eleições não seja apenas quem estamos preparados para escolher, mas como estamos preparados para reagir caso a maioria escolha diferente de nós.
Porque a maturidade democrática não se revela apenas na liberdade de votar em quem desejamos. Revela-se também na capacidade de reconhecer a legitimidade de uma derrota, sem renunciar às próprias convicções, e de compreender que nenhum candidato, partido ou liderança política é maior do que as instituições que permitem sua existência.
No domingo, um candidato perderá a eleição. O que não podemos permitir é que, junto com ele, percamos a capacidade de viver democraticamente.
Dra. Débora Garcia Duarte
Advogada, Mestre em Ciências Jurídicas e Colunista.